O futuro do pretérito
Vivemos um tempo que é prisioneiro da própria falta de tempo. O atropelamento virou rotina no trânsito das prioridades. O "modelo" de gestão engordou e virou "prima dona" em ópera de malandro: cheia de luxo reciclável com pouca verba e muito verbo. As pessoas jurídicas foram criadas à imagem e semelhança das pessoas físicas: com vaidades, inseguranças, sonhos e esperanças.
O somatório de atitudes numa organização é a sua própria personalidade jurídica. A falta de espaço para todos no sistema estabeleceu uma corrida sem limites pela conquista de poder, dinheiro e reconhecimento.
A necessidade de sobreviver profissionalmente passou a ser um processo monitorado dia a dia pela maioria das pessoas. Cada um passou a encarar a realidade com mais "concessões sociais" do que seriam capazes de admitir poucos anos atrás. O mundo profissional aumentou tanto a competitividade que mais parece um tremendo naufrágio do navio de gestão.
As tábuas de salvação se encontram mais na capacidade camaleônica de se adaptar às opiniões da chefia do que no potencial de cada um agregar valor ao negócio da empresa.
A habilidade que desenvolvemos de encontrar defeito no feito alheio é espetacular. Neutralizamos a possibilidade de outra pessoa ocupar nossa vaga na hierarquia organizacional cada vez com mais requintes de desperdício de energia, dignidade e tempo. O foco no passado é uma realidade que transformou nosso retrovisor em pára-brisa e liquidou nossa possibilidade de olhar para o futuro.
O ser humano estuda cada centímetro das estradas por onde passa na esperança de entender as estradas que virão. Esgotamos nossa capacidade de adivinhar o futuro porque, simplesmente, as estradas passaram a ser virtuais e reais, racionais e emocionais, masculinas e femininas.
As auto-estradas industriais e tecnológicas se fundiram e nos surpreendem com curvas espetaculares que se transformam repentinamente em trilhas ecológicas carentes de cuidado humano.
A equação social se agigantou e nem apresenta sintomas de que pretenda diminuir sua velocidade exponencial de mudanças.
Pra completar, a vitrine do sistema capitalista dá sinais de desgaste e ainda se mete numa guerra que, se não for pra renovar o seu arsenal de destruição, tem como objetivo alimentar a sede de combustível do gigante devastador dos recursos naturais do planeta.
Tomara que seja o último capítulo desta novela do século passado.
Tomara que essa sensação de um passado mal passado tenha chegado ao ponto final. Tomara que o mundo se indigne cada vez mais.
Tomara que a Internet e a teleguerra continuem a mostrar mais atrocidades.
Tomara que a gente enxergue a nossa ignorância com mais velocidade.
E que tudo isso continue sendo uma evolução.
Que nos novos tempos cada um de nós não durma em paz enquanto tiver um ser humano com fome no planeta.
E as lições da estupidez sejam suficientes para construir uma nova energia. Uma nova ordem mundial, social, local e pessoal.
Que o passado se localize onde é o seu lugar.
Que o pretérito não seja senão um guia para o futuro.
Que o futuro do pretérito seja um lugar na experiência e na indignação.
Que o futuro do presente seja um presente no futuro de cada cidadão.
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