Piloto ou co-piloto?

O mundo empresarial está cada vez mais complexo e imprevisível. Os modelos de gestão desenvolvidos ao longo da industrialização dos países desenvolvidos não encontram lugar na administração das demandas da era do conhecimento. A previsibilidade de tempos e movimentos em uma esteira de produção industrial não existe quando se trata de serviços e idéias.

Os problemas de atendimento, venda, treinamento, compra, produção, distribuição, marketing e planejamento se avolumam nas mesas e gavetas dos administradores de plantão. A velocidade com que os consumidores estão ficando mais exigentes não encontra paralelo na velocidade de mudança nas empresas, nos administradores e nos funcionários.

É possível dizer que a maior parte das empresas não é administrada pelos gestores e, sim, pelos problemas. São tantas as inconsistências no dia-a-dia que os administradores estão quase sempre resolvendo o que ficou urgente, “pra ontem”. Ou seja, o administrador não é mais o piloto da sua amplitude de gestão, é o co-piloto. A agenda de problemas é tão grande que as urgências automaticamente “furam fila” e deixam os projetos, idéias e visões de futuro sempre pra depois.

Já foi o tempo em que o administrador podia realmente pilotar e definir rotas, pousos, decolagens, combustível, passageiros, carga e duração de cada viagem. Observe seu gerente, seu supervisor, seu diretor ou seu presidente. Eles pilotam os problemas ou são pilotados por eles? É fácil concluir. Observe se sua agenda está sempre lotada, se reuniões e problemas urgentes estão sempre em pauta e se os verbos que ele conjuga estão quase sempre no passado.

Isso mesmo, no passado! Em geral os problemas vêm acompanhados de relatos de pessoas e situações mal resolvidas, em algum lugar do passado, que ocupam o presente e o futuro sem a menor cerimônia. Esses “retrabalhos” gastam o nosso tempo e a energia que deveriam ser destinados a cuidar do futuro e de novas idéias. O paradoxo é que o tempo de resolver o urgente deveria ser dedicado a planejar e evitar as “urgências” da semana que vem, do mês que vem e do ano que vem.

O que fazer? Continuar sendo co-piloto do passado ou piloto do futuro? Creio que passaremos ainda algum tempo aprendendo a pilotar essa nova nave administrativa que faz curvas repentinas e não respeita as premissas de Taylor, Fayol e Ford. A cada manobra, pirueta ou turbulência, a tripulação fica mais assustada que muito passageiro. Parece que vai ser este o único caminho para se construir uma nova linguagem empresarial para os novos tempos.

O homem criou uma nova máquina de gestão, mas não sabe pilotá-la. Vamos ter que aprender, como as crianças aprendendo a andar de skate ou bicicleta. Muitos tombos, insistências e desistências que, ao final, vão selecionar aqueles mais habilitados a fazer da máquina a extensão da sua vontade. É duro anunciar aos pilotos administradores deste novo milênio que eles acabam de ser rebaixados a co-pilotos. Levaremos ainda algum tempo, salvo honrosas exceções, para voltar a planejar e controlar os destinos das nossas ações e evitar ser pilotados pelos problemas pretéritos que não soubemos resolver antecipadamente.

Por enquanto, continuaremos a não ouvir nas salas de embarque gerencial a mensagem que nosso inconsciente continua a repetir nas nossas mentes: ”Atenção, senhores passageiros, com destino a algum lugar no mundo empresarial. Embarque imediato em aeronaves pilotadas por problemas e co-pilotadas por ex-pilotos estressados, tensos e distantes da família, da arte, da música e da poesia que todos nós merecemos desfrutar.”

Nossa esperança é que esses nossos garotos aprendam rápido as manobras dos seus skates e bicicletas para nos dar o prazer de desfrutar da tranqüilidade das manobras executadas por quem realmente deve estar no comando: o piloto.

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